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O Show de Truman

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Irving Penn/Divulgação
Meio século depois, a obra ainda causa polêmicas

Eram os últimos suspiros da década de 1990. Depois de um longa e cansativa viagem de Belém até São Paulo, o que eu mais queria era uma ducha, a cama quente do hotel para relaxar o corpo, a mente e enfrentar o dia seguinte de múltiplas tarefas em mais uma das inúmeras convenções de jornalismo em TV.

No quarto, sobre a cama três de minhas maiores paixões: uma incrível caixa de chocolates suíços, uma garrafa de vinho tinto, sobre a qual minha memória não permite maiores recordações de safra ou procedência e um embrulho bem feito com um enorme laço vermelho que atraía o mais cansado dos jornalistas. Não era pra menos. Foi a primeira vez que li a obra mais polêmica de todas já produzidas por Truman Capote. “A Sangue Frio” já despertava a atenção pelo título e mais ainda por tudo o que Capote significou para o novo jornalismo, independente dos métodos usados ou não por ele. Não nos cabe aqui julgar. The New Journalism teve ainda nomes consagrados com Gay Talese, Norman Mailer, Tom Wolfe e outros.

A chacina de quatro pessoas de uma mesma família em 1959, no estado norte-americano do Kansas, pela dupla de criminosos Richard Hickock e Perry Smith despertou meu interesse desde o prefácio.

No livro, Capote conta que ambos foram até a casa dos Clutter em busca de 10 mil dólares escondidos. Pai, mãe e dois filhos adolescentes mortos com crueldade extrema. Tudo baseado nos depoimentos dos assassinos à justiça e que os levou à morte por enforcamento, 6 anos depois, no mesmo dia 14 de abril com pouco mais de 30 minutos de diferença de um para o outro.

Best-seller do gênero não-ficção

O best-seller de Capote conta a história por meio de entrevistas realizadas pelo autor com os autores do crime, impressões e gravações compradas do julgamento.

Mais de 50 anos se passaram e, mesmo depois de morto, o homem responsável por alguns do conceitos que nortearam o jornalismo atual nos EUA e no mundo tem o nome envolvido em mais uma polêmica. Capote teria conhecimento da existência de um manuscrito de 200 páginas escritas uma a uma pelo próprio Hickock, sobre quem também pesava a acusação de pedofilia, que desmentem alguns detalhes e acrescentam outros a versão do livro, publicado pela primeira vez em 1966.

Hickock e Smith foram enforcados
Hickock e Smith foram enforcados pelas mortes dos membros da família Clutter

Nos manuscritos, redescobertos pelo The Wall Street Journal e sobre os quais Capote teria feito uma proposta de compra sem sucesso, Hickock fala sobre a encomenda do crime por um mandante que teria pago nada menos que os tais 10 mil dólares. Outro aspecto importante que ficou propositalmente de fora de A Sangue Frio foi a relação homossexual entre os dois criminosos, algo que poderia ser mal interpretado pelo leitor.

Assim, Capote, mesmo depois de morto, mantém algumas famas como as de megalomaníaco, inescrupuloso, pioneiro ao lançar luz sobre o gênero literário da não-ficção e competitivo ao extremo.

 

*Adil Bahia tem 50 anos, radialista e jornalista paraense, graduado pela Universidade Federal do Pará, pós-graduado com MBA em Gerência de Jornalismo pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/RJ), em Direção Editorial pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM/SP).