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O FUTURO DO PASSADO

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Faz mais de cem anos desde a morte de Julio Verne (1828-1905), mas o pensamento futurista impressiona a todos que se propõem a folhear alguma de suas muitas obras, bem mais que simples romances de aventuras. Poucos escritores trataram a ciência como algo fundamental para o entendimento do que seria necessário para preservar o mundo e suas espécies como este francês.
Ainda no século XIX, “Da terra à lua” narra, as extravagâncias do aventureiro Michel Ardan que com outros dois candidatos a astronautas são lançados à Lua através de uma bala oca por um enorme canhão. Tudo se passa após a Guerra da Secessão, nos Estados Unidos. O que dá ainda mais ares de profecia à publicação, pois algumas coincidências como o número de três tripulantes, local de partida distante 30 quilômetros de onde partiu o verdadeiro voo pioneiro da Apolo 11, cem anos depois.
“A volta ao mundo em 80 dias” é outro exemplo de que os bons ventos que sopraram trouxeram personagens com máquinas voadoras que o ajudaram a ser o precursor do gênero de ficção científica e um dos escritores com obras mais traduzidas em toda a história para quase 150 idiomas e mais de 100 livros escritos.
Em “Viagem ao centro da terra”, a mente fértil de Verne desvenda os incríveis mistérios existentes nas profundezas da crosta terrestre onde habitam fantásticas criaturas.
Mas, as ideias de Verne não se espalharam no mundo apenas pelo ar. Na água, “Vinte mil léguas submarinas” o visionário cidadão descreve máquinas capazes de percorrer a imensidão dos oceanos e mares e ao mesmo tempo permitir a visualização da vida ali: os submarinos.
Talvez, Verne tenha sido um dos primeiros escritores a ter a preocupação de proteger a floresta da degradação humana.
Mesmo sem pisar uma única vez na Amazônia, nem mesmo no Brasil, ele foi capaz de reproduzir com riqueza de detalhes o ambiente.
“A Jangada”, um romance publicado originalmente em 1881 narra a história de João Dacosta, um brasileiro injustamente condenado à morte pelo roubo de diamantes e o assassinato de soldados, na província de Minas Gerais. Ele foi preso, conseguiu fugir e e adotar o nome falso para reconstruir a vida no Peru, onde tornou-se um respeitável proprietário de terras, casado e com dois filhos. Com o nome Joan Garral, ele manda construir uma jangada para descer o Amazonas e ir até Belém para casar Minha, a filha, com um colega de estudos do irmão. Mas, Garral tem também outras razões: tentar,, correndo o risco de uma execução, a revisão da sentença que o condenou injustamente à morte pelos crimes ocorridos quase trinta anos antes. O fazendeiro pretende levar a bordo parentes, empregados e amigos. A saga é acompanhada por informações detalhadas sobre a região, os rios, a floresta e pessoas de diferentes grupos sociais.
Tudo leva a crer que a inspiração surgiu a partir da série “Viagem do Oceano Pacífico ao Oceano Atlântico através da América do Sul”, de Paul Marcoy (1815-1888) publicada pela revista Le Tour Du Monde, em 1867. A partir daí Verne inicia a série impressionante de narrativas sobre as coisas da região. Descreve o fenômeno da pororoca, que até hoje atrai gente de todo lugar, o canto peculiar do inhambu, uma ave comum na Amazônia peruana e mesmo em algumas regiões do Brasil, a preocupação com a possível extinção do peixe-boi, o valor nutritivo do vinho do açai, a piaçava e até mesmo nossos urubus.

 

*Adil Bahia tem 50 anos, radialista e jornalista paraense, graduado pela Universidade Federal do Pará, pós-graduado com MBA em Gerência de Jornalismo pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/RJ), em Direção Editorial pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM/SP).