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Empresários relatam dificuldades causadas pelo apagão no Amapá

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Macapá (Brasil), 8 de novembro (EFE) .- (Imagem: Jhenni Quaresma). O estado brasileiro do Amapá (norte) continuou neste domingo com racionamento de energia após um apagão de cinco dias na região, situação que obrigou a mobilização das Forças Armadas para transportar 51 toneladas de material a fim de minimizar o caos.

Foto: Reuters/EFE/Jhenni Quaresma/Direitos reservados

Além de causar transtornos à população e aos serviços essenciais, a crise no abastecimento de energia elétrica para 13 das 16 cidades do Amapá, que chega hoje (20) ao 17º dia, vem prejudicando diferentes setores produtivos. Muitos empresários e profissionais autônomos, que já enfrentavam dificuldades devido à pandemia do novo coronavírus (covid-19), se viram impedidos de trabalhar em função da falta de luz e de água no estado.

“Estamos passando por uma situação bem complicada”, disse à Agência Brasil o executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Sandro Bello. Segundo ele, o segmento de alimentação fora do lar, que reúne bares, restaurantes, lanchonetes, docerias, buffets, já amarga um prejuízo da ordem de R$ 24 milhões desde que um incêndio na subestação de Macapá, no último dia 3, causou um apagão em quase todo o estado. A estação pertence à empresa privada concessionária Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), e as causas do incêndio estão sendo investigadas.

Na semana passada, o governo estadual e a prefeitura de Macapá voltaram a estender os decretos que proíbem atividades em clubes de recreação, bares, boates, teatros, casas de espetáculos e de shows, academias entre outros estabelecimentos, para tentar conter o aumento do número de casos da covid-19, Bello afirma que as empresas vêm sendo duplamente prejudicadas, principalmente os estabelecimentos de menor porte

“Só na capital são cerca de 250 bares fechados, o que impacta mais de 4 mil trabalhadores, muitos dos quais estão impedidos de trabalhar”, disse Bello, lembrando que, devido à pandemia, bares e restaurantes permaneceram fechados ou funcionaram com restrições de março a julho.

“Passado este primeiro momento, o trabalho vinha fluindo. Infelizmente, novas medidas contra a doença tiveram que ser adotadas. Não bastasse isso, veio o apagão, que causou mais prejuízos. Inclusive para alguns estabelecimentos que perderam estoques e equipamentos”, acrescentou o executivo, ele próprio dono de uma cozinha industrial.

“Difícil mensurar a situação de quem está enfrentando, simultaneamente, a uma pandemia e um apagão, tendo que manter os salários dos funcionários em dia e as portas abertas, preocupados como pagar o décimo terceiro salário”, desabafou Bello. “Todo mundo teve prejuízos com o apagão. Nos primeiros dias, praticamente nada funcionou. A maioria das empresas teve que adquirir ao menos um gerador para manter seus equipamentos de refrigeração. Até porque, o rodízio tem gerado um risco a mais, porque, além de o cronograma não ser cumprido, há uma oscilação muito grande”, disse o executivo, que teve um gasto imprevisto de cerca de R$ 15 mil para instalar um gerador em seu negócio.

“Os poucos equipamentos à venda foram logo comprados. Aí houve uma inflação absurda nos preços. Houve casos de geradores de pequeno porte que antes eram oferecidos por R$ 1,5 mil passando a ser vendidos por R$ 8 mil”, disse o empresário, lembrando que a grande maioria das empresas do setor é de micro e pequeno porte, para as quais tais gastos têm um impacto. “Além disso, também estão ocorrendo roubos e furtos. Muitas empresas foram furtadas, o que é um outro prejuízo.”

Eventos

A presidente do Sindicato das Empresas Organizadoras e Produtoras de Feiras, Congressos e Eventos do Amapá (Sindieventos-AP), Célia Brazão, disse que o segmento, que movimenta cerca de 50 atividades profissionais, está sendo duramente afetado. Dona de um estabelecimento totalmente climatizado, com capacidade para até 1,5 mil pessoas, ela calcula que só com o apagão seus prejuízos chegam à casa dos R$ 300 mil, considerando as perdas materiais e a suspensão de contratos.

“O setor está praticamente parado desde o início de março. São profissionais de buffets, cerimonial, segurança, salões de beleza, casas de eventos e vários outros que já vinham sendo prejudicados pela pandemia. Houve um breve retorno em setembro, quando eventos para até 200 pessoas foram liberados, mas que foi logo suspenso por causa da segunda onda [da covid-19]. Agora veio o apagão, para fechar as portas de muitos negócios que estavam lutando para sobreviver”, disse Célia.

Segundo a presidente do Sindieventos, empresários tiveram que renegociar ou cancelar contratos após perderem equipamentos e suprimentos. Há também relatos de clientes cobrando o ressarcimento dos gastos com eventos suspensos e de toda a sorte de perdas.

“Tínhamos eventos programados para novembro e dezembro que estão sendo suspensos ou cancelados. Buffets que perderam mais de 40 quilos de pescados; outro que perdeu quilos de camarão e tudo o mais porque não tinha como armazená-los. Enfim, os empresários, que já estavam indignados com a forma como o setor vêm sendo tratado, como se fôssemos os culpados por uma segunda onda da covid, agora estão revoltados com o descaso que afeta a toda a população”, queixou-se Célia, cujo negócio foi alvo da ação de criminosos.

“O apagão está prejudicando também nossos imóveis, que estão sem energia e, portanto, sem proteção. Salões de eventos foram furtados e vandalizados. No meu estabelecimento levaram o cabeamento e danificaram máquinas de refrigeração”, disse Célia, que após 15 anos de atividade ininterrupta tenta cumprir os compromissos agendados.

“Tínhamos uma festa de formatura agendada e que já foi suspensa. Havia eventos menores que foram todos suspensos. Estamos negociando, tentando remanejar datas, pois não há como trabalharmos com geradores. E, mesmo que fosse o caso, nem todos os fornecedores têm um em seus negócios.”

Sorvetes

“A gente está correndo atrás, mas está difícil. Tivemos muitos prejuízos com esse apagão, que está nos causando um monte de problemas, inclusive de saúde, já que estamos tendo que trabalhar em um ritmo desumano”, disse Carmelina Matias Pereira. À frente da mais antiga sorveteria em funcionamento em Macapá, ela também se queixou do rodízio que a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) estabeleceu para atender às cidades afetadas até que a energia seja restabelecida.

“A gente tenta se programar, mas não consegue. O fornecimento é muito inconstante. Estamos tendo que trabalhar em excesso para dar conta de manter as portas abertas”, disse Carmelina, que dirige com as filhas o negócio fundado pelo pai, em 1968.

Segundo ela, mesmo com o sacrifício de todos os funcionários, a produção caiu pela metade. “Nós antes fazíamos sorvete três ou quatro vezes na semana. Agora, temos que fazer todos os dias. Primeiro porque não dá para fazermos tudo com o tanto de energia que temos, que não é suficiente. E temos que fazer tudo correndo. Depois porque não dá para guardar grandes quantidades”.

Além de perder todo o sorvete que tinha produzido e estocado até a noite do dia 3, Carmelina perdeu parte da matéria-prima que utiliza. E teve que passar os cinco primeiros dias da atual crise com as portas fechadas. Ela disse que está gastando entre R$ 80 e R$ 100 por dia para abastecer um antigo gerador a diesel. E ainda teve que chamar um técnico que lhe cobrou R$ 700 para trocar peças de uma máquina industrial.

“Nosso gerador já tem muitos anos de uso. Só o usávamos quando faltava energia por pouco tempo. Não estávamos preparados para lidar com uma situação como esta. Segundo o técnico, o problema da máquina de fazer sorvetes foi causado pela oscilação de energia”, explicou Carmelina, dizendo que está guardando recibo de todas suas despesas extraordinárias. “Estamos computando tudo porque, depois, vamos correr atrás desses prejuízos.”

Sebrae

Após receber pedidos de orientação de vários empresários, o escritório estadual do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-AP) decidiu fazer uma pesquisa para identificar as principais necessidades dos empreendedores de diferentes segmentos, e subsidiar um plano de ação a ser apresentado ao Poder Público.

Além de já ter se reunido com representantes de alguns setores, a equipe local do Sebrae enviou um questionário a cerca de 1,3 mil micro e pequenas empresas. A expectativa inicial era colher as contribuições até ontem (19), mas o prazo foi estendido até o próximo dia 24 porque, devido à falta de energia elétrica, muitas pessoas não conseguiram enviar suas respostas.

“Iniciamos a pesquisa no dia 13 para identificar as necessidades dos empreendedores e contribuirmos com [a propositura] de ações que possam ser trabalhadas em conjunto com as entidades parceiras e órgãos públicos”, disse  a analista do Sebrae-AP Sandra da Gama Gomes.

Por Agência Brasil