Início DESTAQUE Depois da chacina clima segue tenso em Pau D’Arco

Depois da chacina clima segue tenso em Pau D’Arco

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Novo depoimento fortalece suspeita de que policiais civis trabalhavam em associação com os seguranças da fazenda Santa Lúcia, onde houve a chacina de dez trabalhadores rurais sem-terra no Pará. Eles foram assassinados durante operação das polícias civil e militar no dia 24 de maio em Pau D’Arco. Foi a maior chacina no campo dos últimos 20 anos.

Honorato Babinski Filho, dono da fazenda, afirma que a responsabilidade sobre administração dos seus vigilantes compete ao chefe da empresa Elmo, contratada por ele para fazer a segurança da fazenda. “Não tinha conhecimento do andamento do trabalho da polícia e da mesma forma desconheço que os vigilantes tenham participado”.

A participação dos seguranças privados corrobora uma das suspeitas para a motivação do crime: vingança. Isso porque, no dia da chacina, a polícia entrara na fazenda para cumprir mandados de prisão de dez trabalhadores sem-terra investigados pelo assassinato de Marcos Batista Ramos Montenegro, um dos seguranças da fazenda. Marcos morreu com um tiro no rosto no dia 30 de abril – menos de um mês antes da chacina.

Sobreviventes narram ter ouvido a voz do superintendente da Polícia Civil de Redenção, Antônio Miranda, comandando as execuções. Oficialmente, o superintendente não participou da operação que resultou na chacina.

“Eu ouvi o Miranda falando: ‘É pra matar’”, diz uma testemunha que se escondia a cerca de 70 metros do local. “Os outros tavam chorando. Eu ouvi, eles falavam: ‘eu não vou correr não, pelo amor de deus’. Eles estavam vivos. Ouvi as pancadas, e depois não ouvia mais eles falando. Só murmúrio, gemendo. [Os policiais] riam e gritavam. A voz do Miranda [estava] alta, alterada, comemorando”.

Chacina no Pará: depoimentos indicam que polícia agia em associação com fazendeiros

A propriedade foi herança de Honorato Babinski a sua esposa Maria Inez Resplande de Carvalho e três filhos. A fazenda Santa Lúcia está no nome de um deles, Honorato Babinski Filho.

Essa não foi a primeira vez que a polícia matou dentro das terras da família Babinski. Em 2013, em caso que ocorreu na fazenda Pantanal, de Maria Inez Resplande de Carvalho, testemunha afirma que a pecuarista pagou um agente da polícia civil para retirar posseiros de sua terra. Dias depois, em ação na mesma propriedade, outro grupo da polícia civil atirou e matou o funcionário que teria feito o pagamento.

A denúncia sobre o suposto pagamento de propina é um dos elementos da investigação que busca descobrir se um grupo da polícia civil paraense estaria trabalhando ilicitamente na defesa dos interesses dos Babinski.
A testemunha, Elizete Gomes da Silva, falou com exclusividade à Repórter Brasil. Seu depoimento foi colhido pelo promotor Alfredo Amorim, responsável pela investigação sobre a chacina no Ministério Público Estadual. O caso está sendo investigado também pela Polícia Federal.
Elizete está expondo sua vida ao denunciar a suposta corrupção policial em Redenção, cidade onde vive. Ela foi a única entrevistada pela reportagem que concordou em publicar seu nome junto com as denúncias sobre a polícia. O medo ronda as testemunhas e pessoas que têm informações sobre a chacina. Há atualmente seis sobreviventes no programa de proteção à testemunhas.

Repórter Brasil