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Capoeira é utilizada como terapia em presídios do Pará

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Por Timóteo Lopes

“A capoeira tira um pouco da tensão que existe aqui e nos ensina a agir com mais tranquilidade. Parece que estamos em outro mundo”. A sensação foi descrita pela detenta Elisangela Santos, custodiada pela Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe), no Centro de Recuperação Feminino (CRF), em Ananindeua, após participar da oficina de capoterapia realizada dentro da unidade prisional, junto com outras 25 internas.

A capoterapia é uma atividade lúdica, que envolve exercícios de força e flexibilidade, acompanhada de cantigas e brincadeiras de roda, ao som do berimbau e do pandeiro. A terapia foi levada até o presídio feminino para ser utilizada como mais uma ferramenta de ajuda, para as detentas que já participam do projeto “Consolidar redes, ressignificar vidas”, que trabalha com mulheres em situação de dependência química ou transtornos mentais em decorrência do uso de substâncias entorpecentes.

Dicson Costa, que é diretor da Associação Brasileira de Capoterapia no Pará, explica que a atividade foi criada para ajudar pessoas que têm dificuldade de movimentação, adaptada para pessoas que têm algum tipo de limitação. Geralmente, a técnica é utilizada com crianças de 2 a 5 anos e idosos, e agora também com as detentas.

“Há dois meses surgiu o convite para trazermos a terapia aqui para dentro do presídio e trabalhar com as detentas que possuem algum tipo de dependência química. Está dando muito certo. Nós percebemos que as detentas estão melhorando a questão psicológica e física também. Algumas se queixavam de dores e agora dizem que estão se sentindo melhor. Com essa terapia as pessoas vão abandonando algumas necessidades e dependências, como remédios e drogas”, disse Dicson Costa.

Para a detenta Elisangela Veiga, a experiência da capoterapia está ajudando a lidar com o período pós-dependência química. “Eu era viciada em drogas e estou há um ano sem usar nada, mas as consequências sempre ficam na mente e no corpo, então a capoterapia tem me ajudado a ficar mais relaxada, a ter uma concentração melhor. Eu já estou conseguindo até estudar agora”, disse a detenta.

A psicóloga do CRF, Margareth Correia, explica que a capoterapia ajuda a tratar do corpo e mente e tem sido utilizada no tratamento das detentas dependentes químicas. “A capoterapia nos ajuda a ter acesso a todos os sentimentos dessas mulheres, em todos os aspectos da vida, porque conseguimos tratar da questão espiritual, dos relacionamentos, das dependências que elas possuem e do comportamento, especialmente dentro do cárcere. A capoterapia utiliza instrumentos que vão ajudar essas mulheres na caminhada que elas têm aqui dentro, a se reconhecerem e se autoavaliarem, para perceberem que não precisam das drogas”, explicou a psicóloga.

A detenta Ana Carolina Mota disse que o estresse é um dos principais problemas para quem está dentro do cárcere e a capoterapia tem ajudado a melhorar o dia a dia de todas que estão participando do projeto. “Aqui dentro ficamos muito ansiosas e, consequentemente, ficamos mais irritadas. Eles fazem o trabalho da respiração com a gente e aprendemos a nos acalmar, a pensar antes de agir. Enquanto eu estou participando da capoterapia, dançando, fazendo as atividades, eu esqueço até que estou presa”, disse a detenta.

“A capoterapia é um complemento do tratamento que as internas já fazem, para combater o álcool e a droga. Nós sentimos a necessidade de ter alguma atividade que extravasasse as emoções delas, para reforçar o trabalho que elas fazem com médicos, terapeutas, psicólogos e trabalhar com a terapia em grupo”, explicou a diretora do CRF, Carmem Botelho.