Início BLOG DO BACANA Bethânia e Zeca Pagodinho lançam novo DVA

Bethânia e Zeca Pagodinho lançam novo DVA

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O ponto de partida é precioso: sagrados para o samba, os territórios do Recôncavo Baiano e da Baixada Fluminense se encontram em De Santo Amaro a Xerém, nas figuras de Maria Bethânia e Zeca Pagodinho, personificações respectivas da MPB universitária dos anos 1960 e do popularíssimo pagode de fundo de quintal dos anos 1980.

No entanto, a reunião registrada em DVD padece dos entraves burocráticos habituais do formato. Bethânia e Zeca entram de mãos dadas no palco e cantam juntos uma inédita de mano Caetano Veloso (Amaro a Xerém), um samba que ficou histórico na voz de Bethânia (Sonho Meu, de Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho) e uma visita espelhada ao samba por Caetano (Você Não Entende Nada) e Chico Buarque (Cotidiano), conforme os autores registraram ao vivo em 1972.

A cantora baiana entrega o palco ao compositor fluminense, que faz um bem bolado do próprio repertório, mais uma versão brejeira de A Voz do Morro, do patrono Zé Keti, estrela do show Opinião (1964), em que Bethânia despontou.

Quando Zeca canta o partido alto Ogum, ela volta para declamar a tradicional oração a São Jorge – sincretismo, espelhamento, nessa leitura cruzada a MPB é o samba, e vice-versa. Bethânia toma conta sozinha da cena, revisitando suas próprias releituras para sambas de Noel Rosa, Dorival Caymmi, Geraldo Pereira, Paulo Vanzolini, Billy Blanco, Chico e outros.

A burocracia vaza nos detalhes, como quando ambos os intérpretes cantam de olhos plantados no teleprompter, sem domínio pleno das letras menos repisadas.

A mágica acontece no reencontro final, com um pot-pourri de raridades cantadas em dueto, com ápice em Chão de Estrelas (de Silvio Caldas e Orestes Barbosa), seresta avó do samba e da MPB. Zeca então presenteia a plateia com o momento de maior espontaneidade do show (preservado com graça no DVD), quando traz à tona o tom autoritário da parceira 13 anos mais velha na seleção do repertório. Bethânia ri e aceita, entre contrariada e reverente.

Afinal, quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, a MPB ou o samba?

Carta Capital