Início BACANA NEWS Úrsula Vidal lembra a dificuldade dos povos indígenas, em seu dia, sem...

Úrsula Vidal lembra a dificuldade dos povos indígenas, em seu dia, sem muito o que comemorar

Compartilhar

Ramam Kelapan precisou viajar mais de 24 horas de seu lugar para chegar em Belém. Membro da tribo Kuriti _ um dos 700 povos indígenas tribais da Índia_, Ramam cruzou o Atlantico de avião, enfrentou o desconforto de ter que calçar sapatos e comer a comida estranhíssima servida nas bandas de cá pra compartilhar sua história de luta pelo respeito à tradição e ao modo de vida das populações originárias. Este homem de fala firme e olhos cheios de esperança milita no cultivo orgânico da terra. A experiência com fertilizantes e agrotóxicos no plantio do arroz foi devastadora, matando os peixes e colocando em risco a segurança alimentar de toda a comunidade. Hoje as 52 sementes crioulas de arroz, cultivadas durante o ano todo, são compartilhadas com as comunidades próximas, numa dinâmica que não gera lucro; mas gera sustentabilidade, cooperação e amor pela terra.

O cacique Kroti, Kayapó da aldeia Kaorakera, viajou quase 18 horas dentro do Pará, saindo de Ourilândia para chegar a Belém. Sua fala é semelhante a de Raman. A lógica do agronegócio, do agrotóxico, do agropop está colocando em risco a vida nos rios e nas florestas. Insetos polinizadores desaparecem do bioma maltratado pelo veneno que se infiltra na terra e desorganiza os ciclos de reprodução da vida, em harmonia há milhões de anos. Se faltar árvore, falta chuva. Se faltar chuva, falta água nos reservatórios que movem as turbinas das hidrelétricas. Se faltar turbina girando, falta dinheiro no bolso do consumidor, que acaba pagando uma fortuna ainda maior na bandeira vermelha da tarifa de energia elétrica. Tá tudo interligado no planeta e quem nos avisa, há décadas, sobre os perigos do desmatamento são os povos tradicionais.

O agro está envenenando a população de Cachoeira do Arari, que viu seus campos serem tomados pelos arrozeiros saídos da Terra Indígena Raposa Serra do SOL. Aqui, como ninguém fiscaliza e o governo do Pará libera licença ambiental numa facilidade jamais vista no planeta, o agrotóxico corre solto e a população morre de veneno e de tristeza. História parecida com a de Barcarena e seu polo industrial poluidor e mal pagador. Ou melhor, não paga porque o governo não cobra _pelo contrário: isenta de imposto.

Em Altamira, depois da desgraça consolidada _a cidade é hoje a mais violenta do Brasil _ a briga agora é por metro cúbico de água por segundo. É o famoso: “depois da queda, o coice”. O IBAMA, a Norte Energia e a ANA – Agencia Nacional de Águas pactuaram um negócio chamado Hidrograma de Consenso. Criaram um cálculo irresponsável para abrir a torneira do reservatório e liberar água para a parte de baixa vazão do Xingú. Durante 6 anos vão ver como a vida no local se vira pra resistir com pouquinha água. Os Juruna estão monitorando e já avisaram que isso não vai dar certo. Lançaram uma publicação em parceria com o ISA mostrando que o cálculo de vazão não sustenta a reprodução da vida. Mas se a Norte Energia liberar mais água para os ribeirinhos e indígenas que vivem nesta parte do rio, sobra menos água pra gerar o lucro das turbinas girando na Hidrelétrica de Belo Monte. Mais um capítulo da força da grana matando a vida e o futuro. E o Governo do Pará acha pouco: licenciou na região a instalação da maior mineradora de ouro a céu aberto do planeta na Volta Grande do Xingú: a canadense Belo Sun. E para os ribeirinhos que não foram expulsos da beira do rio, resta ver o esgoto da cidade sendo despejado nas águas, a metros de suas casas. Como imaginar um cenário mais cruel e desumano?

Quilombolas, ribeirinhos, indígenas, povos de matriz africana, ciganos e pesquisadores estão reunidos no evento internacional Belém + 30 para fazer um grito de alerta ao mundo. A Amazônia está em risco. E o planeta é um só. E estamos todos na mesma casa, no mesmo barco.

Salve o Dia Internacional Dos Povos Indígenas!
Para que não vivamos um salve-se quem puder…

Texto Úrsula Vidal
Foto Nai Jinknss – personagem Cacique Kroti, Kayapó de Ourilandia