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Paragominas investiga rompimento de barragens particulares em fazendas

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PARAGOMINAS - PARÁ - 12.04.2018- Equipes da Defesa Civil do Estado, Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar já estão no município de Paragominas, nordeste do Estado, para atender a população atingida pelas fortes chuvas (foto) na madrugada desta quinta-feira, 12. O coronel Francisco Cantuária, coordenador da Defesa Civil, explica que a instituição foi acionada às 5h da manhã e enviou para o local uma equipe formada por mergulhadores de salvamento de águas rápidas. Também será instalado na cidade o sistema do Comando de Operações para poder definir ações que irão dar assistência para os desabrigados. “As primeiras informações levantadas mostram que pelo menos 100 casas teriam sido atingidas depois de cinco horas de chuvas. Também há suspeita de um possível rompimento de barragens próximo a cidade”, afirma. O titular do Centro Regional de Governo do Sudeste do Pará, Jorge Bitencourt, também está a caminho do município.(FOTO: ASCOM / SETRAN)

Belém (PA) – A prefeitura de Paragominas, município do nordeste paraense, confirmou o rompimento de barragens durante a chuva da noite de quarta-feira (11), que pode ter contribuído para a enxurrada que atingiu 16 bairros da cidade, desalojou ou desabrigou 350 famílias e matou duas crianças. Segundo o Corpo de Bombeiros, as crianças foram arrastadas pela força da água durante a enxurrada. Os nomes delas não foram divulgados. A prefeitura decretou estado de calamidade pública.

Na tarde desta sexta-feira (13), uma equipe do município realizou um sobrevoo pela cidade para verificação dos danos causados pela enxurrada. “Foram detectados rompimentos de barragens no entorno da cidade”, diz o órgão.

Em terra, equipes da Secretaria Municipal de Meio Ambiente visitaram fazendas da região para averiguar os rompimentos de barragens e, caso sejam confirmados, devem autuar os proprietários.

Ainda não há confirmação sobre a quantidade e o tipo de barragens rompidas, mas especialista consultado pela Amazônia Real acredita que sejam reservatórios de água que abastecem fazendas às margens dos rios de Paragominas. Veja abaixo um vídeo divulgado pela população da cidade nas redes sociais.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), entre 23h de quarta e a primeira hora de quinta-feira (12), a chuva alcançou o índice de 132 milímetros; durante toda a noite, foram 151 mm.

“Essas chuvas formaram uma linha de tempestade que abrangeu toda aquela região [nordeste paraense]”, explicou o meteorologista José Raimundo Abreu, diretor do 2º. Distrito de Meteorologia de Belém.

Os valores estão muito acima da média histórica para o mês de abril em Paragominas, que é de 350 mm. “Em uma noite, choveu quase a metade do previsto para o mês inteiro”, disse o meteorologista. Abreu afirmou que até o momento, em Paragominas, o total de chuvas é de 400 mm. Cada milímetro de chuva corresponde a um litro de água por metro quadrado.

O governo do Estado do Pará enviou equipes da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar ao município. Também foi instalado sistema de Comando de Operações para assistir os desabrigados. Durante as chuvas, a rodovia PA-256 foi rompida, na altura do km 12, que fica entre a rodovia BR-010 e o rio Capim. Um desvio foi estabelecido através de uma fazenda às margens da pista.

Segundo o subcomandante do Corpo de Bombeiros do Pará, coronel Augusto Lima, Paragominas “sofreu um alagamento, mas também junto com essa água veio a enxurrada – o que sai levando tudo pela frente”.

O coronel disse que 16 bairros foram afetados, causando danos econômicos a cerca de 100 casas. Há, ainda, 350 pessoas desabrigadas ou desalojadas. Até o momento, não há registro de pessoas desaparecidas.

“Paragominas é apenas um dos municípios nessa situação. Temos em torno de 21 municípios em situação de emergência, alagamento, enxurrada. Temos um número considerável nas regiões sudeste e nordeste. Municípios que já estão em reconstrução”, informou o subcomandante do Corpo de Bombeiros, ressaltando que o desastre em Paragominas foi o que causou maiores danos.

O município fica a 215 km a sudeste de Belém e possui cerca de 110 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE (Censo de 2017). A economia do município tem como base a agropecuária, atividade madeireira e mineração de bauxita. “Conduzimos agora o monitoramento pluvial. Além da situação de emergência, estamos em alerta para novas chuvas”, completou o coronel Augusto Lima.

“Houve uma chuva e a acumulação de água em Altamira. Romperam-se duas barragens de terra, utilizadas para armazenar água, feitas em pequenos córregos próximos à cidade. Os córregos eram afluentes de um igarapé maior, que cerca a cidade de Altamira”, relembrou o engenheiro. “A água que foi extravasada da barragem e o acúmulo da chuva causaram uma enchente tão grande que desalojou muita gente.”

Essas barragens, porém, devem ser dimensionadas para suportar as chuvas da região, ressalta Charone, professor da UFPA que diz que as barragens estão em fazendas da região, feitas de terra, que vazarem com as a
Tas dos rios. Ele lembra que a cerca de cinco anos situação parecida aconteceu em Altamira.

“Além disso, ninguém pode fazer barragem, nem em pequenos córregos, sem autorização da secretaria de meio ambiente. Se o dono da barragem construiu sem autorização, ele está passível de punição pela legislação”, completou.

A Amazônia Real procurou a Secretarias Estadual (Pará) e Municipal (Paragominas) de Meio Ambiente para checar o licenciamento ambiental das barragens, mas até o fechamento desta reportagem não houve retorno.

Servidor público aposentado, Raimundo Ramos Filho, 64, estava na sala de sua casa quando viu a água invadir o corredor principal. O bairro Angelim, em que mora, foi um dos mais atingidos pela enxurrada.

“Foi rápido que encheu de água, ainda bem que eu estava acordado. A água já baixou, mas ainda está feio aqui”, contou Raimundo, que mora com sua esposa e duas filhas. Na manhã desta sexta, 13, ele limpava a casa e contabilizava os prejuízos.

“Aqui, os colchões se perderam, não teve jeito. Geladeira, máquina de lavar, fogão, tudo isso perdido”, lamentou o aposentado. “Na hora da correria, botei a geladeira em cima da mesa, mas a águEa ultrapassou. O negócio foi feio. No quarto, a água deu mais de metro na parede. Alagou toda a vizinhança. Hoje está todo mundo limpando.”

“Há muita informação desencontrada no Whatsapp [aplicativo de mensagens]”, conta Magda Reis, também servidora pública em Paragominas.

“Acreditamos que houve, sim, rompimento de barragens. Nossa opinião é a de que, com a chuva forte, iria alagar, como já ocorreu em outros anos, mas não nessa dimensão”, completou Magda, que havia comprado alimentos para a escola em que sua filha estuda, onde estão sendo preparadas refeições aos desabrigados.

A prefeitura também disponibilizou nove pontos de abrigo para famílias que perderam suas moradias. Doações de roupas, materiais de higiene pessoal e água também podem ser encaminhadas a esses locais.

São as escolas Maria da Silva Nunes, Salmonozor Brasil, Reginaldo Souza Lima, Amílcar Tocantins e Sonia Terzella, além do Centro de Referência de Assistência Social Camboatã, do ginásio de esportes, da creche Ítalo Garcia e do estádio de futebol Arena Verde. Procurada para dar mais detalhes sobre as barragens rompidas, a prefeitura de Paragominas não respondeu até o fechamento desta reportagem.

Texto Moisés Sarraf , Amazonia Real