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O poder da cloroquina em dividir opiniões

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Foto: Reprodução

Por Pedro Valdez e Kaliu Andrade, Revista Bacana

A pandemia que o mundo se encontra já nos colocou em xeque por diversas vezes e nem sempre pelo mesmo motivo. Cientistas no mundo todo pesquisam a cura da COVID-19, seja através de vacinas ou mesmo de remédios que possam conter este inimigo silencioso.

Entre medicamentos conhecidos, aqui no Brasil, vários sumiram das farmácias ao primeiro sinal de pesquisa e sondagens de que serviriam para a cura do Coronavírus. Remédios como a Nitazoxanida (annita) é um exemplo disso. Mas quem causou polêmica nos últimos dias foi a Cloroquina, medicamento utilizado precocemente para combater o Coronavírus em diversas regiões do Brasil.

Várias pesquisas estão em prática algumas para provar a eficácia da droga e outras para mostrar os riscos de tal medicamento para a saúde dos indivíduos infectados pela Covid-19.

A origem da cloroquina

A origem do remédio vem da América espanhola, quando índios do Peru tiveram contato com uma substância chamada “quina”, extraída da folha de uma árvore. Ela servia para tratar febres e calafrios e posteriormente a malária.

A cloroquina como medicamento laboratorial foi descoberta em 1934 por Hans Andersag, na Alemanha Nazista, mas foi considerada muito tóxica para o ser humano. A droga foi deixada de lado por dez anos. No fim da II Guerra tropas americanas tiveram contato com a substância e foram feitos ensaios até que fosse comprovada eficácia contra malária.

Para que serve?  

A hidroxicloroquina e a cloroquina são medicamentos diferentes, mas com base na mesma substância. Os benefícios são parecidos, mas a hidroxicloroquina é mais segura e com menos efeitos colaterais nos tratamentos que ela já era indicada. São usadas em geral para lúpus e artrite reumatoide. 

Como ela surgiu para supostamente combater a Covid-19

Desde que a pandemia do novo coronavírus foi decretada pela Organização Mundial da Saúde, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump defendeu que essa droga era eficaz contra a Covid-19. Segundo ele alguns testes iniciais in vitro, em laboratório, mostravam o sucesso da interrupção da propagação do vírus nas células do corpo. Seguindo o comandante em chefe americano, o presidente Jair Bolsonaro poucos dias depois também indicou o remédio para o tratamento dos brasileiros infectados. O Sistema Único de Saúde adotou então um protocolo humanitário de uso da cloroquina para quem estivesse em estado muito grave ou terminal. Uma polêmica foi gerada em torno do assunto, pois não há comprovação científica até agora do benefício do uso da cloroquina contra o coronavírus. 

Governo Bolsonaro vai contra a opinião de médicos e pesquisadores

Atualmente o Ministério da Saúde brasileiro mudou o protocolo para uso da cloroquina e variantes. Pessoas com sintomas leves também entraram na lista de indicações. Um documento foi anexado ao protocolo, onde o paciente assina um termo de responsabilidade caso haja efeitos colaterais durante o uso da droga. A Sociedade Brasileira de Infectologia também não recomenda o novo protocolo. 

O presidente Jair Bolsonaro está entre os que defendem o uso dos medicamentos no combate à covid-19. Em vários pronunciamentos o presidente reforçou que é preciso salvar vidas e que se há alguma possibilidade do remédio dar certo, ele precisa ser utilizado. “Nós estamos tendo centenas de mortes por dia. Se existe uma possibilidade de diminuir esse número com a cloroquina, por que não usar? Alguns falam que pode ser placebo. Pode ser. Você não sabe. Mas pode não ser também. A gente não pode, por exemplo, falar: ‘Ah, se tivesse usado a cloroquina lá atrás, teria salvo milhões de pessoas. Só isso”, disse o presidente. “Ainda não existe comprovação científica. Contudo, estamos em guerra: pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado”, afirmou Bolsonaro.

Cloroquina derruba ministros e divide opiniões médicas

O posicionamento do presidente foi motivo de conflito entre Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, dois ex-ministros da Saúde que acabaram demitidos.

O Governo Federal pagou pelo quilo da cloroquina em pó, insumo do medicamento pivô da queda do ministro da Saúde, Nelson Teich, quase seis vezes o preço pago menos de um ano antes. Uma mesma empresa sediada em Campanha, no interior de Minas Gerais, vendeu o produto para o Comando do Exército e para o Ministério da Saúde, no intervalo de um ano.

A cloroquina foi importada, nos dois casos, de um mesmo fabricante da Índia, o Laboratório IPCA.

O Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército comprou em maio 500 quilos do sal difosfato, a matéria-prima da cloroquina. A encomenda saiu por R$ 652 mil.

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse que o governo federal pretendia alterar a bula da cloroquina para incluir no documento a recomendação de tratamento para covid-19. A declaração foi feita na noite de 4ª feira (20.mai.2020) em entrevista à GloboNews.

Segundo Mandetta, a alteração seria por decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro. “Eu me lembro de quando, no final de um dia de reunião de conselho ministerial, me pediram para entrar numa sala e estavam lá um médico anestesista e uma médica imunologista, que estavam com a redação de um provável ou futuro, ou alguma coisa do gênero, um decreto presidencial… E a ideia que eles tinham era de alterar a bula do medicamento na Anvisa, colocando na bula indicação para covid-19”, afirmou.

A médica Nise Yamaguchi, próxima à Bolsonaro, defende o uso da hidroxicloroquina no tratamento. “Eu luto tanto pela hidroxicloroquina porque salva vidas. O ideal é a pessoa usar nos primeiros sintomas para não ficar doente. É um vírus, 80% das pessoas não vão ter sintomas. A maioria as pessoas que está transmitindo nem sabe que tem. Por isso, tem que usar máscara para não transmitir.  As pessoas em cinco dias de tratamento não vão ficar doente (grave). Então, quanto mais cedo tratar melhor”, disse Nise ao Jornal do Piauí. O Conselho Federal de Medicina liberou para que os médicos decidam se vão aplicar ou não esse tipo de tratamento. Após uma reunião com Bolsonaro, o médico Mauro Ribeiro, presidente do Conselho, explicou o motivo da liberação. “O que estamos fazendo é dar ao médico brasileiro, dentro da sua autonomia profissional, o direito de utilizar a droga, em decisão compartilhada com o paciente. É uma autorização, mas não recomendação”, destacou Ribeiro.

Organização Mundial da Saúde se manifesta contra o uso da droga

A Organização Mundial de Saúde (OMS),anunciou, na última segunda (25), a suspensão de testes com a hidroxicloroquina em pesquisas que ela coordenava com cientistas de 100 países. E ainda, formalizou em sua página na internet a decisão de retirar a cloroquina das opções de medicamento em estudo para tratar a Covid-19, ainda que, na prática, esse medicamento nem tenha sido colocado em testes.

“De acordo com o protocolo do estudo inicial, a cloroquina e a hidroxicloroquina foram selecionadas como possíveis drogas a serem testadas no estudo Solidariedade. No entanto, o teste só foi realizado com a hidroxicloroquina; então, a cloroquina foi removida desta página como uma opção de tratamento listada em estudo”, diz o site da OMS.

O Ministério da Saúde no Brasil manterá as orientações que ampliam o uso do medicamento. A declaração foi dada pela secretária de gestão em trabalho na saúde, Mayra Pinheiro.