Início DESTAQUE Futuro imaginado no Vale do Silício passa antes por burocratas de Washington

Futuro imaginado no Vale do Silício passa antes por burocratas de Washington

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Inteligência artificial, rede 5G e carros inteligentes: o futuro pensado pelas empresas de tecnologia no Vale do Silício passa antes por Washington, núcleo do poder político dos Estados Unidos, que encara desafios que vão desde escrever novas leis a determinar os limites da inovação.

“Estar no negócio da tecnologia significa passar mais tempo em Washington do que nunca”, afirmou recentemente o presidente da Samsung para a América do Norte, Tim Baxter.

O pensamento do executivo da gigante sul-coreana é compartilhado pelos principais empresários do setor, que ressaltaram a importância das novas legislações em uma convenção organizada na última semana na capital americana por um dos grupos da Câmara dos Representantes.

Não atoa, a Amazon construirá uma de suas novas sedes entre o Pentágono, o centro do poder militar, e o Capitólio, onde estão congressistas e senadores, um local cada vez mais ligado ao universo tecnológico do Vale do Silício.

Nem tudo são flores nessa nova relação entre inovadores e burocratas. A interferência da Rússia nas eleições presidenciais de 2016 fez com que Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, fosse ouvido em uma audiência no Congresso recentemente. Pelo mesmo motivo, o diretor do Google, Sundar Pichai, também vai a Washington.

Os questionamentos sobre os limites e capacidades das novas tecnologias estão cada vez mais presentes nos corredores do Congresso, que recebem a cada ano mais executivos do Vale do Silício para tentar esclarecer as dúvidas daqueles que podem, quem sabe, proibir a comercialização de um produto ou serviço.

“Se com a impressão 3D qualquer usuário pode ser produtor, alguém pode imprimir armas com isso?”, questionou uma congressista à conselheira legal da HP, Jeniffer Prioleau, no evento desta semana.

A pergunta é apenas uma das dúvidas dos políticos, muitos deles com pouco ou nenhum conhecimento sobre o mundo da tecnologia. Outras inovações também chamam a atenção. O futuro da “internet das coisas”, que conectará todos os tipos de objetos à rede, também impõe desafios sobre outros setores, como o transporte.

Com grande expectativa, o gerente da Samsung apresentou no evento o protótipo de carro totalmente conectado à internet, algo que, segundo ele, abrirá novas possibilidades de prevenir acidentes e melhorar a segurança de motoristas e passageiros.

Montadoras de automóveis e empresas de transporte, como Toyota, Ford, Uber e Lyft, buscam encontrar a fórmula que leve esses avanços para o cotidiano, mas sem infringir a lei.

“Estamos tentando entender o que está ocorrendo”, afirmou o diretor de Assuntos Governamentais da Toyota, Robert Chiappetta.

A regulação dos patinetes elétricos que tomaram conta de parte das cidades americanas é o princípio de um processo que chegará aos carros automatizados, já testado pelo Google no Arizona.

A previsível mudança que as cidades viverão será acompanhada de uma transformação das casas, cada vez mais controladas pelos assistentes de voz de Google, Amazon, Apple e Samsung.

Para que os protótipos funcionem, as empresas lutam para encontrar modos mais sofisticados de compilar e analisar dados, sem violar as legislações de privacidade. E o motor que controlará esse futuro é a inteligência artificial.

“A quarta revolução industrial será baseada na gestão de dados”, reconheceu Prioleau.

A afirmação da conselheira legal da HP coincide com o testemunho do diretor de Internet das Coisas da Intel, José Álvaro Ávalos, que acredita que a análise de dados é a função mais importante para que as máquinas sejam capazes de aprender e tomar decisões corretas.

Por fornecer processadores para as mais diversas indústrias do mundo, Ávalos acredita que a Intel pode ter uma “posição de liderança” para compilar informações em quaisquer circunstâncias.

Fora o aspecto da privacidade, os dados também são afetados pela legislação econômica. Durante a Black Friday nos Estados Unidos, os pagamentos por celular representaram 42,6% das transações efetuadas, de acordo com a Adobe Digital Insights.

Apesar do tom otimista sobre o futuro, o presidente do setor de Política Tecnológica da McAffe, Kent Landfield, colocou sobre a mesa de debate a exclusão digital, que poderá aumentar com os avanços.

“A internet é muito vulnerável. Se você não conhece a linguagem e os códigos da rede, estará em uma situação de desvantagem e com uma segurança menor”, afirmou Landfield, revelando uma realidade com a qual os legisladores também terão que lidar.