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As artistas e pesquisadoras paraenses de Mulheres & Quadrinhos

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Foto: Monique Malcher

Por Juliana Angelim, REDE PARÁ

Dentre os lançamentos de 2019 no campo da nona arte, o livro Mulheres & Quadrinhos certamente destaca-se pela abrangência e importância da proposta. Com a organização das pesquisadoras Daniela (Dani) Marino e Laluña Machado (ambas editoras do site Minas Nerds), são quinhentas páginas recheadas de histórias em quadrinhos, artigos científicos, entrevistas e contos assinados por cento e vinte mulheres: a saber, tratam-se de quadrinistas, pesquisadoras, ilustradoras, jornalistas, editoras, roteiristas e outras profissionais que trabalham com quadrinhos, provenientes de todas as regiões brasileiras.

Quem responde pela publicação é a Skript Editora, que, em um projeto inédito, buscou abranger o maior número possível de mulheres envolvidas com a produção e pesquisa de HQs no país. Elas foram convidadas a refletir e a se expressar acerca da relação da mulher com os quadrinhos, tanto a relação profissional como também a presença dela na condição de personagem das obras.

Conforme Dani e Laluña revelam no decorrer da introdução do livro, ele foi pensado com o objetivo de fortalecer artistas, pesquisadoras e jornalistas que têm se empenhado em ampliar o espaço para as mulheres exibirem suas produções – independente da orientação sexual, identidade de gênero, cor da pele, etnia e aparência física de cada uma. Além disso, pretende-se desmitificar alguns equívocos (“mulheres não leem quadrinhos”, “mulheres não produzem quadrinhos” e “mulheres só produzem quadrinhos fofos ou sobre emoções e relacionamentos” são alguns deles) baseados unicamente no senso comum e capazes de prejudicar a inserção das mulheres no mercado editorial dos quadrinhos no Brasil.

Foto: Monique Malcher

Quem são as participantes paraenses?

Amanda Barros (Mandy Barrosé quadrinista, ilustradora e professora de artes. Formada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Pará (2016). Em 2017, participou de um laboratório experimental de quadrinhos com Volney Nazareno, cujo resultado foi a publicação de Menina que vem de Itaiara, HQ que toma por referência trechos do livro homônimo da escritora paraense Lindanor Celina. Depois dessa, colaborou com outras duas coletâneas de quadrinhos locais: a primeira edição da revista Açaí Pesado (2018) e Meu Círio em quadrinhos (2019). Participa do Coletivo Açaí Pesado e também do Oddverso Comics, coletivo que ela criou em parceria com seu marido, Giovanne Mamedio, e com Samyr Kato. Dois dos principais personagens que integram o Oddverso Comics são a Mulher Garça e o Homem Urubu, representações da própria Amanda e do marido. E a contribuição dela para Mulheres & Quadrinhos é, justamente, uma ilustração da Mulher Garça.

Outra ilustração que compõe o livro intitula-se Equilíbrio. A autora, Delianne Lima, é designer, ilustradora e jornalista. Possui graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade da Amazônia (2009) e pós-graduação em Design Gráfico pelo Centro Universitário Senac de São Paulo (2013). Atualmente, é diretora de arte e locutora no Sistema de Ensino Equipe, em Belém, e colunista do blog Designerd.

A ilustradora Layse Almada é natural de Belém, criada no Amapá e, há alguns anos, mora em São Paulo. Cursou bacharelado em Moda pela Unama (2013). Seus desenhos foram dos bordados e estampas para as paredes de galerias, para as peles das pessoas (ela também passou a atuar como tatuadora) e para as superfícies do centro de São Paulo onde ela cola os lambe-lambes que produz. Para a coletânea da Skript Editora, submeteu a HQ sem palavras Respira.

Ilustração de Layse Almada retirada de seu perfil no Instagram, o @laysealmada

A grafiteira, aquarelista, ilustradora e artesã Thayanne Freitas (Thay Petit) nasceu no Rio de Janeiro, mas com onze anos de idade veio para Belém. Formou-se em Serviço Social pela UFPA (2014), fez mestrado em Antropologia pela mesma universidade (2017) e hoje em dia é doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua aproximação com a arte ocorreu durante o mestrado, através do graffiti. É integrante do Freedas Crew, coletivo de mulheres e um homem trans que fazem graffiti nas ruas de Belém, e também do M.AR, coletivo de mulheres artistas paraenses. Criou para Mulheres & Quadrinhos a HQ denominada O mutirão de graffiti.

Graffiti de Thay Petit em São Paulo. Foto retirada do @thay_petit.

O coletivo M.AR surgiu em 2018, por iniciativa da ilustradora, quadrinista e professora de artes Thaís Silva (Ty Silvae de outras artistas locais que se reuniram com o objetivo de dar visibilidade à produção artística feminina no Pará. Thaís possui bacharelado em Moda pela Unama (2011) e mestrado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2016). De 2014 a 2019, suas criações artísticas compuseram os acervos de cinco exposições, seja no Pará ou em São Paulo. Apesar de ter trabalhado com o tema histórias em quadrinhos em seu trabalho de conclusão de curso e dissertação de mestrado, foi em 2018 que começou efetivamente a fazer arte sequencial. Nesse ano, no âmbito de um laboratório de quadrinhos na Casa das Artes, ela e outros cinco participantes produziram HQs inspiradas em diferentes contos da escritora Eneida de Moraes – que foram agrupados e publicados sob o título Simplesmente Eneida e que marcaram o início da parceria conhecida como Coletivo Purumã. Também membro do Coletivo Açaí Pesado, colaborou com histórias para o fanzine #DRX e para a revista Açaí Pesado 2: lendas urbanas, ambos de 2019. Quanto ao livro organizado por Daniela Marino e Laluña Machado, ela aparece com o título Raízes.

Beatriz Miranda é designer, quadrinista e pesquisadora. Nasceu em Cametá e mora em Belém há dez anos. Bacharel em Design pela Universidade do Estado do Pará (2018), trabalhou em seu TCC os temas feminismo e objetificação da imagem feminina em narrativas de super-heróis. Ademais, como produto final da pesquisa, desenvolveu a HQ autobiográfica Não se esqueçam de nós, que discute a representatividade feminina na nona arte, a partir de entrevistas realizadas com algumas mulheres do contexto local. Em agosto de 2019, durante sua participação no Beco dos Artistas da 23ª Feira Pan-Amazônica do Livro, levou a público o fanzine Silêncio – espécie de prévia da HQ que concebeu para Mulheres & Quadrinhos, intitulada Overture.

Página do fanzine Silêncio, cedida pela autora Beatriz Miranda

Assim como Beatriz, Monique Malcher também é pesquisadora, além de escritora e colagista. Natural de Santarém, é graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Unama (2012), mestre em Antropologia pela UFPA (2018) e, nos dias de hoje, doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas na Universidade Federal de Santa Catarina. Desde o TCC, vem construindo sua trajetória de pesquisa sobre histórias em quadrinhos, e, em especial, sob o viés das questões de gênero e sexualidade. As HQs Fun Home, de Alison Bechdel, e Azul é a cor mais quente, de Julie Maroh, foram seus objetos de estudo para o mestrado, enquanto que a escolha para o doutorado foi Sem dó, de Luli Penna. E são os (des)encantos do amor romântico nessa última obra que ela aborda no artigo publicado em conjunto com as produções de outras cento e dezenove mulheres brasileiras, sendo seis delas conterrâneas paraenses.

Lançamento

Para quem não adquiriu Mulheres & Quadrinhos através da campanha de financiamento coletivo na plataforma Catarse, ele está à venda pelo site da Amazon desde dezembro de 2019 (a pré-venda teve início em setembro). Também foi possível comprá-lo no decorrer da CCXP 2019, junto às mesas de várias das autoras que participaram do evento. Em fevereiro de 2020, ocorrerá lançamento do livro em pelo menos duas cidades: São Paulo (na Loja Monstra, dia 14 de fevereiro) e Belém (previsto para a primeira quinzena do mês).